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Soturno I

Difícil era sentir o peso perpétuo vagando pelo labirinto da solidão enquanto defronto meu reflexo no espelho e vejo toda atribulação se manifestar. Infelizmente a cada vez que nele olhava as respostas não pareciam me encontrar, no fundo dos meus olhos nada mais enxergava. Era incerto, obscuro. Monólogos incessantes a fim de no fundo da minha alma uma resposta encontrar, mas do que vale fazer perguntas se não há voz que possa dar resposta. As noites infindas, um martírio que ficava preso dentro do meu coração, por mais que eu tentasse esquecê-lo, eu sabia que lá estava, me consumindo. Singularmente essa amálgama do Vazio amiúde assumia forma fantasmagórica, uma tormenta surgindo do medo preso em mim, o temor que alimentava esse espectro tomava uma proporção absurda, e para minha agonia a simetria entre o fantasma e meus pesadelos estava perfeitamente alinhada. O desespero para me ausentar do meu quarto, pois lá sabia que em um breve espaço de tempo a porta para sua presença era oportuna, e não iria titubear em fazer sua maldita visita. Por mais que colocasse barreiras para evitar o contato, era inevitável, pois ele sabia que solitário e vulnerável eu estava, não tinha como fugir, nada poderia ser feito. Assim ficava, preso um castigo que não era merecido, o castigo da negação que tinha diante de tudo isso, meu coração ficava entorpecido por toda essa atmosfera umbrática que se estabelecia. Não sabia até quando isso iria continuar, quando haveria um grito de desespero e para uma luz adjutória me resgatar... Noites que me atormentavam sem fim, medo e solidão, uma combinação que é capaz de acabar com a esperança de um poeta, que olhando à sua imagem não encontrava mais poesia para recitar. Me sinto envolto pelo ódio, o meu sangue logo transmuta-se em uma coloração obscura, minha sombra que apenas projeta-se em minha forma logo se abarca por todo quarto. Sinto-me recluso por toda essa escuridão que traz consigo um frio tenebroso, capaz de aniquilar qualquer manifestação de vida, tudo isso numa relação de simbiose entre nós. Nos tornamos únicos em meu vazio ela encontra um mar para poder navegar livremente, é como se eu abrisse as portas para deixar todos meus sentimentos mais viciosos, desmoralizados e corrompidos estabelecerem sua própria vontade. Torno-me um Verme, apenas um mero veículo de locomoção dominado pelas sombras, minha clemência é ínfima, foi banida dessa mente anômala que busca apenas sua autorrealização, essa que não é fruto de produto material algum, é algo mais profundo, algo conceitual. Ao lado da sombra eis que surge a fumaça, com sua forma sutil se envolve aos poucos, materializa-se. Eis a Caveira, o verme fica assustado, pois a caveira não é digna de boa recordação, então ela se esvai e assume a forma duma Rosa; o verme fica reflexivo, e estende sua mão, mas quando segura entre seus dedos é machucado, em seu talo brotam um grandes espinhos, o verme passa a sangrar, o sangue não é mais vermelho, é preto, logo o verme cerca-se de seu próprio ódio e assim decide ficar. No ermo dos seus olhos via-se a última centelha, a luz havia se extinguido.

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